Roguemos que amanhã
Rafael Gutierrez
Não há remédio, companheira.
Neste país
até as formigas confabulam contra a alegria.
Roguemos que amanhã
chovam sobre nós
bestas de amnésia
para ficar, agora sim, soterrados todos
sob
uma
avalanche
de
bruma
da qual nunca, oh efêmeros, devemos ter saído.
Poeta Guatemalteco (1958-...)
Tradução de André Damázio
Ananké*
Rafael Arévalo Martínez
Quando cheguei à parte em que o caminho
se dividia em dois, a sombra veio
a dobrar o horror de minha agonia.
Ó Hora dos destinos! Quando chegas
é inútil lutar. E eu sentia
que me socilitavam forças cegas.
Desde o cume em que disforme lava
escondia a fronte de granito,
minha vida como um pêndulo oscilava
co'a fatalidade dum "está escrito".
Um passo nada mais e definia
pra mim a existência ou a agonia,
pra mim a razão ou o desatino...
Dei aquele passo e se cumpriu um destino.
(de "Los Atormentados", 1914)
Rafael Arévalo Martínez, poeta guatemalteco,
da Geração de 1910, também chamada Geração do Cometa.
-------------
* Ananké, na mitologia grega, era a personificação da
inevitabilidade, da necessidade e da compulsão. Na
mitologia romana era Necessitas.
Ela o disse em um poema
Miguel Ángel Asturias
Vai passando esta pena,
a pena da vida,
a pena que não importa,
tu a sentiste longa,
eu a senti curta
e ainda está distante
a terra prometida.
A nosso passo errante
fatal é todo empenho,
toda esperança é morta,
toda ilusão falida.
Eu guardarei teu nombre,
eu velarei teu sonho,
eu esperarei contigo os primeiros alvores,
eu enxugarei teu pranto quando comigo chores,
e quando já não queiras que caminhe contigo
deixa-me abandonada com um grão de trigo
sobre as sementeiras
Deixa-me pra sempre quando já não me queiras!
Poema de Miguel Ángel Asturias, poeta guatemalteco,
agraciado pelo Prêmio Nobel de Literatura de 1967.
Tradução de André Damázio.
Ele o disse em um poema
Miguel Ángel Asturias
Já quando passe o tempo em que te espero,
quando a beatitude de teus carinhos
voltes a dar-me e nos sintamos meninos
já talvez não te quero.
Si tardas muito, primavera fugiu
e a teu regresso, atrás das portas juntas,
encontrarás sentado um Velho Esquecimento
com os olhos carregados de perguntas.
(Guatemala-Paris / 1918-1928)
Poema de Miguel Ángel Asturias, poeta guatemalteco,
agraciado pelo Prêmio Nobel de Literatura de 1967.
Tradução de André Damázio.
Credo
Miguel Ángel Asturias
Creio na Liberdade, Mãe da América,
criadora de mares doces na terra,
e em Bolivar, seu filho, Senhor Nosso
que nasceu em Venezuela, padeceu
sob o poder espanhol, foi combatido,
sentiu-se morto sobre o Chimborazo,
ressucitou à voz da Colombia,
tocou o Eterno com suas mãos
e está em pé junto de Deus!
Não nos julgues, Bolivar, antes do dia último,
porque cremos na comunhão dos homens
que comungam com o povo, só o povo
faz livres aos homens, proclamamos
guerra a morte e sem perdão aos tiranos
cremos na ressurreição dos heróis
e na vida perdurável dos que como Tu,
Libertador, não morrem, fecham os olhos e ficam velando.
Buenos Aires, 1954
Poema de Miguel Ángel Asturias, poeta guatemalteco,
agraciado pelo Prêmio Nobel de Literatura de 1967.
Tradução de André Damázio.
Proverbios e Cantares - XXIII
Antonio Machado
Não estranheis, doces amigos,
que esteja minha testa enrugada:
eu vivo em paz com os homens
e em guerra com minhas entranhas.
PROVERBIOS Y CANTARES - XXIII
Antonio Machado, poeta espanhol
Trad. André Damázio
Original
Provérbios e Cantares - IV
Antonio Machado
Nossas horas são minutos
quando esperamos saber,
e séculos quando sabemos
o que se pode aprender.
Proverbios y Cantares - IV
Antonio Machado, poeta espanhol
trad. André Damázio
Original